Fecho os olhos e imagino que sou capaz de voar, de ser livre... das ausências que sinto resta apenas memória... olho para os meus pés descalços (iguais ao teus) e imagino que estás comigo. Sou mesmo aquela semente que deixaste para trás no teu último adeus que não chegou estupidamente a ser feito.
Sou mulher, sou forte, sou pessoa... aparentemente sou aquela que não sente, que aguenta tudo, que nada afecta... na verdade deito o meu corpo cansado no meu velho sofá e apenas fecho os olhos, imagino que não sou de carne e osso... que não sou sequer humana... que já não me apetece lutar por mais nada... para quê? Sinto que já passou o meu tempo. Na frustação de muitas situações que por mim passaram vejo a razão para estar sozinha. Na memória das minhas ausências quero apenas esquecer, deixar de ser, de estar ou conhecer. Porque não me visitas em sonhos e temos aquela conversa que tanto preciso? Por favor fala comigo... palavras sábias as tuas quando te referiste à saudade que iria sentir da tua hiper protecção. Já sabias que te ías embora muito antes de o fazeres... não tens esse direito. Deves à minha simples pessoa uma explicação... quando na verdade apenas quero nada mais que uma abraço. Da nossa última coversa onde questionaste se eu estava feliz, eu menti. Sem ti não consegui nunca ser completamente feliz. Fizeste de mim o que sou hoje e ninguém te tira essa vitória... mas deste a esta simples pessoa um perspectiva de vida que não quero...
Como te amo... como te vou amar sempre... como te perdoo... como te arrependo de ter feito birra e não ter falado mais contigo... porque me excluiste... eu nunca o fiz sabes?
Por favor... fala comigo. Aparece esta noite nos meus sonhos e fala comigo. Deixa-me dizer tudo aquilo que preciso. Tira este peso da minha vida. Diz que me amas também. Diz que estás bem nesse sitio desconhecido que tentei sempre ignorar. Diz que tens orgulho em mim e que me perdoas por fingir que não queria mais te ouvir... Vou esperar por ti. Tal como o fiz sempre, inutilmente... porque nunca voltaste... como adorava poder voltar atrás dez anos da minha vida e ter impedido o tempo. Ter congelado todos os bons momentos que passamos. As tuas piadas repetidas, as tuas parvoíces que me faziam corar...
Que raiva que sinto por te ter visto pela última vez da maneira que foi... anos longe de mim para voltares assim? Para te imaginar desta forma? Não quero. Não aceito. Não é justo.
1 comentário:
Recado
ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me
que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço
Usando as palavras de Al Berto, minha amiga-mulher, te deixo este recado.
Com amor
M.
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